Um olhar sobre o poema Pluvial de Augusto de Campos

por Thiago Moreira Correa (FFLCH/USP)

Mais de cinco décadas após a formação da vanguarda brasileira denominada concretismo e ainda se observa uma incompreensão com relação a esse movimento literário.

Talvez, devido ao intenso período em que os integrantes do grupo tentaram inovar o modo de fazer poesia por meio de polêmicos manifestos e embates literários, a investigação acerca dessa poesia é bastante reduzida se comparada à plêiade brasileira.

Contudo, é difícil não creditar à vanguarda originada no Brasil e que ganhou notoriedade internacional um papel importante na literatura brasileira e mundial, pois ela trouxe grandes inovações no modo de produzir e traduzir poesia.

Desse modo, esse artigo tenta se reunir àqueles que contribuem para o estudo dessa vanguarda analisando um poema da fase ortodoxa (AGUILAR, 2005, p. 23) da poesia concreta.

Em sua fase ortodoxa a vanguarda brasileira postulou uma poética rigorosa, na qual o poema deveria ser construído de forma sintético-ideogrâmica. A realização dessa inovadora poética se deu pela utilização do branco da página como constituinte ativo do poema, pela estruturação dos poemas por meio das formas geométricas, principalmente as formas gestálticas (quadrado, círculo e triângulo); emprego enuncivo da linguagem e condensação do material linguístico – Exame direto. Comparação. Concentração. “I work in concentration”, diria Pound noutra oportunidade. Separação drástica do melhor. “A chave é a invenção, o primeiro caso ou primeira ilustração encontrável” (POUND, 2010, p. 10).

A seguir, analisa-se um poema da fase mais rigorosa da poesia concreta, diga-se rigorosa no sentido de total aplicação dos preceitos impostos pelos manifestos da vanguarda. Laça-se mão do poema Pluvial (1959) muito característico dessa fase

Figura 1. Pluvial

Como pode ser observado, há associações entre plano de conteúdo e plano de expressão que estruturam o poema. No plano fonético, averigua-se a relação entre as consoantes fricativa [f] e oclusiva [p] surdas, que iniciam cada palavra e os conteúdos das duas palavras utilizadas no poema, pluvial, relativo à chuva e fluvial, relativo a rio.

Os sons fricativos são contínuos se comparados aos sons oclusivos (descontínuos), como também o movimento da corrente dos rios é contínuo se comparado às gotas (descontínuas) que formam a chuva, logo, as categorias semânticas continuidade vs. descontinuidade estão associadas, respectivamente, às categorias fricativo vs. oclusivo dos fonemas [f] e [p] iniciadores das palavras fluvial e pluvial.

Outra relação entre o conteúdo e expressão é encontrada na disposição do poema na página. A palavra pluvial tem os traços semânticos gotas mais água mais movimento vertical e está disposta verticalmente de acordo com seu conteúdo, ao passo que a palavra fluvial possui o mesmo traço semântico água, mas se diferencia pelo conteúdo movimento horizontal e pela disposição horizontal na página. Então, o conteúdo relativo às figuras rio e chuva se associa à categoria topológica horizontal vs. vertical.

Pela construção do poema, esse inter-relacionamento do rio e da chuva no ciclo da água se evidencia, pois a palavra pluvial, em uma leitura de cima para baixo da direita para a esquerda, é repetida sete vezes formando um grande romboide, enquanto a palavra fluvial incompleta se fragmenta no pequeno triângulo abaixo. A chuva geralmente possui uma maior extensão do que o rio e suas gotas rompem a superfície fluvial, manifestando um movimento ativo.

Desse modo se observa uma pequena narrativa desempenhada pelas palavras do poema. Em um primeiro percurso, a chuva é considerada sujeito, cuja função, dentro de um discurso científico sobre o ciclo da água, é encher rios e mares (além de alimentar as plantas). Em termos de junção da sintaxe narrativa, o sujeito chuva entra em conjunção com o objeto-valor difusão, assim, a chuva, sem paradas, se difunde na superfície fluvial.

Com isso as categorias semânticas concentrado vs. expandido e passivo vs. ativo são associadas nessa leitura às categorias eidéticas triangulado vs. paralelogrâmico e topológicas menor vs. maior e superior vs. inferior.

Figura 2. Formas geométricas no poema


Tabela 1. Leitura descendente

No ciclo da água, a evaporação da água dos rios se condensa a certa altura no céu em forma de gotículas de água formando nuvens, o excesso dessas gotículas produz a precipitação em forma de chuva.

Concebe-se ao rio um papel ativo em uma fase do ciclo, pois devido a sua evaporação não só desempenha essa função atuante como também possui uma maior extensão.

Em uma leitura de baixo para cima e da esquerda para a direita, a palavra fluvial é repetida seis vezes formando um grande romboide, à medida que a palavra pluvial vai se desfazendo a cada linha formando um pequeno triângulo na parte superior.

Figura 3. Leitura ascendente

Mudando a direção de leitura do poema se obtém novas significações, por isso ocorre uma inversão das categorias semânticas. A palavra fluvial agora se relaciona com os conteúdos ativo e expandido e com as categorias plásticas maior e paralelogrâmico, ao passo que a palavra pluvial está associada no plano de conteúdo a passivo e concentrado e no plano de expressão a menor e triangulado. Entretanto, as categorias plásticas superior para pluvial e inferior para fluvial se mantém, possivelmente em proveito de uma referência a suas posições na semiótica do mundo natural.

Em termos de sintaxe narrativa há também uma inversão dos actantes, pois agora o sujeito fluvial está em conjunção com o objeto-valor difusão, já que o rio em evaporação se difunde na formação de nuvens (efeito da condensação) que consequentemente em um processo de saturação produzem a chuva.

Metonimicamente o ciclo da água é construído pelo poema na utilização de dois de seus agentes constitutivos: chuva e rio.

Tabela 2. Leitura ascendente

A temática desse poema se concentra nas relações linguísticas entre as figuras fluvial e pluvial produzindo um poema que incorpora em sua estrutura verbivocovisual essas relações.

A produção de uma poesia em que o plano de expressão e o de conteúdo são construídos para criar esse objeto autônomo de interpretações subjetivas e um afastamento do lirismo poético, efeito obtido pelo emprego do enunciado enunciado, acabaram marcando a fase ortodoxa do concretismo.

Nota-se uma predominância da temática prática, associada ao ciclo da água, porém as figuras pluvial e fluvial tratam de si mesmas, ou seja, estão relacionadas pelo que as constituem como signos linguísticos e isso se explicita ainda mais pela geometrização e pela paronomásia.

Apesar de a temática prática estar em evidência em uma primeira leitura é relevante considerar a temática metalinguística porque sua própria construção é tematizada, pois ao explicitar o fazer poético em seus artifícios fonéticos, plásticos e semânticos o enunciador omitido no enunciado enunciado, já que não se pode encontrar marcas enunciativas com somente esses dois adjetivos, mostra seu engenho ao enunciatário.

A estrutura poética revelada é constituinte do próprio poema, logo, o fazer integra o ser do poema, criando um efeito de objetividade.

O enunciador concretista põe em foco os mecanismos poéticos utilizados na composição do poema para que o enunciatário se concentre objetivamente no texto, pois o texto, pertencente à temática metalinguística, se volta para si mesmo e faz com que o enunciatário se fixe na hermenêutica textual. Somando-se a esse recurso a ausência de marcas enunciativas é produzido o efeito objetividade tão almejado pelo movimento literário.

Visto sob tal temática, o poema pluvial é concentrado, pois condensa seu material linguístico em prol da exposição de sua própria estrutura. Dentro do regime de triagem (FONTANILLE; ZILBERBERG, 2001, p. 28), o material poético é altamente selecionado para expor seu funcionamento dentro do rigoroso objeto concreto.

Esquema 1

Esse processo é muito comum na fase ortodoxa da poesia concreta, cujos ideais de objetividade e inovação são reforçados pela concentração metalinguística, assim, a triagem aparece como regime por excelência dessa fase da poesia de Augusto de Campos.

Portanto, essa análise tenta mostrar a inventividade poética desempenhada por uma economia de recursos, ou seja, a aparente simplicidade do poema não significa sua simploriedade.

 

Referências

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