O cérebro e o divã em análise: a Neuropsicanálise em suas articulações com o conceito de narcisismo

por Josiane Cristina Bocchi* 

 

Neuropsicanálise não existe?

Uma boa parte das questões endereçadas à psicanálise na atualidade diz respeito ao seu papel frente às neurociências e à presença cada vez mais frequente de conceitos psicanalíticos nos modelos neurobiológicos da mente. Estudos desta natureza vêm adquirindo visibilidade nas duas áreas desde a década de 90, propondo diferentes formatos de aproximações e interfaces entre conceitos freudianos e desenvolvimentos neurocientíficos do último quarto do século 20 e anos 2000. A maioria destes modelos aproximativos são empíricos e utilizam tecnologias de neuroimagem funcional, o que contrasta com o modus operandi da psicanálise.

Afinal, qual o lugar da psicanálise neste circulo de debates e, mais ainda, o que representa a neuropsicanálise (Neuropsychoanalysis) nas interfaces da psicanálise com a neurobiologia? Teria sido a neuropsicanálise invenção de um grupo de neurocientistas excêntricos e simpatizantes de Freud ou fruto da inspiração de psicanalistas não ortodoxos, interessados em investigar se as defesas psíquicas respondem a algum sistema cerebral executivo? Mais curiosamente, há quem diga que a neuropsicanálise não existe, como Suzana Herculano-Houzel (2011), em seu artigo definitivo sobre o assunto.

Pilhérias à parte e direto ao que interessa, a posição de Suzana é insustentável: “só o próprio Freud poderia rever seus conceitos à luz da neurociência e, então, propor uma neuropsicanálise”. Em outras palavras, a neuropsicanálise não existe, porque Freud não está vivo para rever seus conceitos. Logo, os desenvolvimentos pós-Freud e as novas escolas de pensamento que deixaram a psicanálise mais focada nos problemas de seu tempo também não existiram. A psicanálise lacaniana ou a escola inglesa de relações objetais não passaram de mitos, porque a psicanálise morreu com seu fundador.

É o que se deduz da opinião da autora, que exemplifica como certos debates envolvendo psicanálise e neurociências reúnem argumentos apressados e ideológicos, ao invés de discussões mais bem fundamentadas.

 

Um programa de estudos

O surgimento da neuropsicanálise segue um contexto científico e acadêmico impulsionado, a partir dos anos 80, pela abordagem da subjetividade nos estudos sobre a cognição humana. Neurocientistas propuseram diálogos para a clínica psiquiátrica e para temas psicanalíticos, como Eric Kandel (1998; 1999; 2007) e Jean Pierre Changeux, em “L ‘homme neuronal” (1998). Outros autores têm defendido uma convergência da psicanálise com uma nova visão em biologia, como Morton Reiser (1984), Mattew Erdelyi (1985) e Robert Clyman (1991).

A neuropsicanálise representa um formato de interlocução entre neurociências e psicanálise: um programa de pesquisa e de intervenção clínica, cujo foco está nas relações entre o cérebro e funções psicológicas. Ela está conceitualmente embasada na psicanálise freudiana e na escola de neuropsicologia dinâmica, que descende dos trabalhos de Aleksandr Romanovich Luria. Por esse motivo, neuropsicanálise reúne pesquisas objetivas, como testes neuropsicológicos e exames de neuroimagem funcional, e procedimentos psicanalíticos, tais como sessões de psicoterapia e o uso de conceitos psicanalíticos para a discussão dos casos clínicos, como inconsciente, narcisismo e ego, entre outros.

Estuda-se as relações entre sistemas cerebrais e fenômenos clínicos normais ou patológicos, como nas doenças neuropsiquiátricas decorrentes de lesões neurológicas. Segundo os neuropsicanalistas, a psicanálise disponibiliza um método para chegar às motivações primitivas daqueles quadros (aspectos inconscientes da personalidade) que dificultam a compreensão do transtorno e interferem na recuperação dos pacientes. Graças à noção de sistema funcional e ao método de localização dinâmica (ou análise da síndrome), a neuropsicanálise busca entender o papel do sistema nervoso nas funções psicológicas. Mas não se trata aqui de um reducionismo biológico ingênuo ou da localização strictu sensu, o foco do problema não está na neuroanatomia e sim no esquema interno entre as funções mentais – o modo como se representam e se organizam, como elas estão integradas e como se desorganizam na doença, etc (Kaplan-Solms & Solms, 2004).

O programa de estudos neuropsicanalítico se constitui como uma demonstração de como a pesquisa interdisciplinar neurocientífica pode se apoiar em conhecimentos psicanalíticos e lançar luz no terreno das neuropatologias, em toda a sua complexidade emocional e cognitiva, como nos exemplos a seguir.

 

Vinhetas

A síndrome do hemisfério direito designa diversas manifestações decorrentes de lesões no hemisfério cerebral direito (SHD). Os casos discutidos por Kaplan-Solms e Mark Solms (2001, 2004) apresentam distúrbios na percepção da imagem corporal: eles não reconhecem a perda da funcionalidade do membro esquerdo e tem dificuldades cognitivo-espaciais correspondentes[1]. Intervenções psicanalíticas fizeram com que os pacientes negligentes para com seu problema tomassem consciência de seu estado físico real durante as sessões.

 

Sr. C,59 anos (hemiplegia na mão esquerda)

Ele racionaliza a paralisia: “meu braço é um pouquinho bobo e preguiçoso”, “parece um pedaço de carne morta”. Tratava o lado esquerdo do corpo como se não fosse seu, tinha episódios breves de choro e era alheio e exigente com a equipe médica. Na sessão psicanalítica, tinha uma aparente invulnerabilidade e culpabilizava os profissionais por seu estado:

“Karen replicou que talvez fosse doloroso demais tomar contato com o que ele estava prestes a reconhecer no momento anterior – ou seja, que seu braço estava, de fato, totalmente paralisado – e que saber se o braço se recuperaria ou não estava totalmente fora do controle dele. Esse comentário provocou um desabamento instantâneo de sua expressão facial, com irrupção de uma emoção dolorosa próxima às lágrimas. Virando-se para Karen, disse em desespero: “Mas olhe meu braço [apontando para o braço esquerdo], o que é que vou fazer se ele não recuperar? (Esse foi seu comentário mais reflexivo até o momento, envolvendo um reconhecimento pleno de sua problemática – um momento de fato sem defesas). Então, o Sr. C fez um longo silêncio,  após o que reverteu para seu estado usual de aparente indiferença”. (KAPLAN-SOLMS & SOLMS, 2004, p. 66-67, grifos nossos) 

 

Sr. D,  34 (mão levemente paralisada)

Este paciente não negava o problema como os demais, mas tinha ódio pela mão e acessos de raiva contra esta e a equipe médica. Apresentava constantes atitudes de desconfiança e controle quanto à equipe hospitalar. O Sr. D também agia como se a mão não fosse parte do seu corpo;

Sessão: “Vou fazer essa mão em milhões de pedacinhos e mandá-los pelo correio para o neurocirurgião”,  “Eu mordi minha mão e cuspi os pedaços de        carne fora, porque eu não a suporto”.

 

Sra. A, 61 (sequelas motoras e uso cadeira de rodas)

Apresentava negação do déficit e, como o Sr.C., só reconhecia a paralisia na sessão analítica. Tivera duas tentativas de suicídio. Ela estava clinicamente deprimida, mas continuava negando conscientemente as perdas. Nas sessões, ela sofre pela dependência dos cuidados externos, mas não reconhece o derrame como o motivo de sua tristeza.

 

O que a psicanálise traz para a compreensão desses casos? As intervenções psicanalíticas com o Sr. C e a Sra. A apontam que a dinâmica psíquica da SHD é mais complexa, eles percebem os danos corporais em algum nível, uma vez que os admitem num dado momento (na sessão, por exemplo): “eles sabem perfeitamente bem o que aconteceu aos seus corpos, mas não querem sabê-lo” (KAPLAN-SOLMS & SOLMS, 2001, p. 172), enquanto os indivíduos com lesão no hemisfério esquerdo se comportam de modo totalmente diferente: “o que se passa com esses pacientes que eles são tão intolerantes com relação a emoções depressivas, bem como a sentimentos associados à perda e dependência?” (KAPLAN-SOLMS & SOLMS, 2001, p. 172). A investigação psicanalítica aponta para o uso de defesas narcísicas e paranoicas (como no Sr. D), utilizadas para suprimir certas informações que geravam dor mental.

De acordo com o autores, o quadro clínico da Sra. A era compatível com uma melancolia, em moldes semelhantes ao que Freud descreveu em “Luto e melancolia” (1917). Sua melancolia se deu em função de uma grande perda (a condição saudável, a integridade corporal e a independência) e veio acompanhada de um ódio autodirigido, como de praxe. Freud (1917 [1915]) diz que o melancólico até pode identificar o que perdeu, mas não sabe exatamente o que perdeu no objeto e esse parece ser um típico exemplo: a paciente identifica uma perda (ela se queixa por ser obrigada a depender de cuidados externos), mas não sabe precisamente o que foi perdido junto com o objeto. “Luto e melancolia” (1917) também aponta que o melancólico tem uma relação narcísica com seus objetos de amor, isto é, marcada por uma fixação ao objeto (que é intensamente investido), porém com um vínculo frágil que pode sucumbir às intempéries da vida. Diante de uma desilusão, o sujeito não consegue desinvestir o objeto e começar de novo: ele inconscientemente substitui o investimento amoroso por uma regressão narcísica e uma forte identificação com o objeto, que será introjetado no seu ego, gerando conflitos.

No caso da Sra. A, o corpo saudável é o objeto perdido. Ela teria introjetado a imagem desse objeto, de modo que a concepção do braço permaneceu intacta dentro dela, por isso a recusa em perceber a sequela motora. Mas devido à ambivalência inerente ao mecanismo da introjeção, o objeto perdido reconstruído no ego torna-se alvo de hostilidade, explicando os impulsos suicidas. No caso do Sr. D, também houve introjeção e regressão a uma relação narcísica com o seu corpo (o objeto), mas ao invés de guardar o objeto danificado consigo ele o expulsa e assim externaliza a raiva ao invés de ficar intoxicado por ela. Este paciente usava mecanismos projetivos, por isso ficava persecutório quanto à realidade: a ameaça era vivenciada como vindo de fora: neurocirurgiões incompetentes, um hospital negligente, e assim por diante. Suas fantasias eram de natureza paranoica (a mão fazia parte da realidade externa que era odiada), e isso mantinha seus impulsos auto-destrutivos fora do seu ego, por isso ele não tentara se matar, como a Sra. C (Kaplan & Solms, 2001, p. 193-194).

 

Ferida narcísica e cognição espacial

Os três casos têm em comum vivências depressivas, uma aparente hipoemocionalidade (acompanhada de emoções suprimidas), atitudes narcisistas na relação com a equipe e com seus corpos (com arrogância, controle e fúria) e negação permanente de sua doença. A percepção da nova realidade é excessivamente intolerável a eles, que têm motivos para estarem tristes ou bravos, porém, segundo os autores, a questão é que eles não vivenciam conscientemente os verdadeiros motivos. Segundo Solms e Kaplan (2001), o método psicanalítico pôde identificar um padrão sintomático: havia idealização do controle narcísico do corpo, fracasso no processo normal do luto pela modificação corporal e uma reação depressiva ou paranóica à doença neurológica. Antes da doença neurológica, esses indivíduos provavelmente tinham uma relação narcísica consigo, com seus corpos e com a realidade (e não puderam aceitar a perda da vitalidade de uma parte do seu corpo). É isso que é tão insuportável à percepção deles, como uma ferida narcísica.

Segundo o casal Solms, no hemisfério direito, os objetos são representados em sentido concreto e totalizado, por isso quando o objeto perdido é dividido em partes amadas e partes odiadas – o que é próprio da melancolia e no caso destes pacientes são os aspectos saudáveis de seus corpos – estas partes são tratadas como se fossem verdadeiros objetos separados, o que explica incapacidade de se perceberem em sentido total, explicando o sentido bizarro dos sintomas de recusa da percepção realista de sua nova imagem corporal. Esse é o fator específico dessa síndrome (SHD) que a “distingue das lesões equivalentes na região perisylviana do hemisfério esquerdo, onde os objetos são representados não concretamente, mas simbolicamente, como palavras, e não como coisas” (KAPLAN-SOLMS & SOLMS, 2004, p. 100).

É provável que com a lesão no hemisfério direito, houve uma perda parcial da representação do esquema corporal da pessoa enquanto coisa e na ausência da função que auxilia na representação do corpo concreto esses indivíduos ficaram à mercê de uma auto-imagem patologicamente distorcida.

 

Considerações finais

Há diferentes estudos neurocientíficos que propõem uma ponte entre a neurociência e a psicanálise. A maioria deles opera por análises comparativas entre seus resultados experimentais e conceitos psicanalíticos, todavia, sem um corpo teórico de base. Longe de questionar as contribuições específicas destes trabalhos, a neuropsicanálise pode ir além dos estudos comparativos empírico-conceituais, devido à fundamentação teórica nas áreas envolvidas. Afinal, ela atualiza uma linha de pesquisa teórico-clínica e, ao mesmo tempo, realça um conjunto de problemas a serem investigados por neurocientistas e psicanalistas – a clínica das neuropatologias.

A neuropsicanálise, portanto, coloca em prática uma pesquisa de natureza interdisciplinar e reafirma a tradicional intertextualidade psicanalítica com diferentes disciplinas; um expediente usualmente praticado pelos psicanalistas e pelo próprio Freud, em suas trocas com a clínica médica, a antropologia e a biologia.

Embora esses fatos sejam ignorados ou omitidos no argumento de Herculano-Houzel (2011), a neuropsicanálise surge como um exemplo concreto de como a psicanálise pode contribuir para avanços na compreensão de certas neuropatologias e quem sabe oferecer um modelo explicativo mais amplo para pensar e organizar outras investigações em neurociência cognitiva.

 

*Josiane Cristina Bocchi  é Pós-Doutoranda e docente colaboradora do Departamento de Psicologia, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

 

Referências bibliográficas:

Changeux, J-P. Neuronal man: the biology of mind. New Jersey: Princeton University  Press, 1997.

Clyman, R. B. The procedural organization of emotions: a contribution from cognitive    science to the psychoanalytic theory of therapeutic. J. Amer. Psychoanal. Assn., 39S,            p.349-382, 1991.

Erdelyi, M. H. Psychoanalysis: Freud’s cognitive psychology. New York: Freeman &          Co, 1985.

Freud, S. Duelo y melancolía (1917 [1915]). Sigmund Freud. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1989, vol. 14, p. 235-255.

Herculano-Houzel, S. (2011). Neuropsicanálise existe? Publicado na coluna da Folha na Uol em 27/09/2011 às 03h30. Recuperado em 10/10/2011. Disponível também em: http://www.nenc.com.br/blog/neuropsicanalisetexocomautoriadaprofhouzel

Kandel, E. R. (1998). A new intellectual framework for psychiatry. In: ______. Psychiatry,          psychoanalysis and the new biology of mind. American Psychiatric Publishing, Inc.,    Washington, DC, 2005, p. 33-58.

Kandel, E. R. (1999). Biology and the future of psychoanalysis: a new intellectual framework for psychiatry revisited. In: _____. (2005). Psychiatry, psychoanalysis and the          new biology of mind. American Psychiatric Publishing, Inc., Washington, DC, 2005, p.        63-106.

Kandel. E. R. (2007). À la recherche de la mémoire: une nouvelle théorie de l’esprit. Trad. do inglês por Marcel Filoche. Paris: Odile Jacob.

Kaplan-Solms, K.; Solms, M. (2001). Clinical Studies in Neuro-Psychoanalysis: introduction to a depth neuropsychology. 2.ed. New York: Other Press (Karnac).

Kaplan-Solms, K.; Solms, M. (2004). O que é a neuro-psicanálise: a real e difícil articulação entre a neurociência e a psicanálise. Trad. Eliana Nogueria do Vale. São Paulo: Terceira Margem.

Reiser, M. F. (1984). Mind, brain, body: toward a convergence of psychoanalysis and neurobiology. New York: Basic Books.

 



[1] As desordens mentais, nestes casos, resultaram de lesões na “convexidade perisylviana do hemisfério direito”, geralmente por acidentes vasculares ou traumas, cujas sequelas físicas são paralisias ou hemiplegias na parte esquerda do corpo (mão e/ou braço). Esse distúrbio perceptivo da imagem corporal foi primeiramente relatado por Babinski em 1914. Os casos relatados a seguir encontram-se nos textos de Mark Solms e Karen Kaplan-Solms (2001;2004).

 


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