por Valéria C I Costa (costaval@terra.com.br). Formada em Ciências Biológicas (IBUSP), com Mestrado e Doutorado em Neurociências e Comportamento (IPUSP) e Pós-Doutorado em Aprendizagem e Memória (FFCLRP-USP). Atualmente é Coordenadora em Neurociências do Centro Integrado de Psicologia e Educação e Projeto Plural – Grupo de Estudos em Neurociências e Educação (Ribeirão Preto).
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PBL – O que é
A aprendizagem baseada em problemas (ABP ou PBL) é uma proposta pedagógica que começou a ser desenvolvida no final da década de 60 na McMaster University (Canadá) e posteriormente na Universidade de Maastrich na Holanda. Esta proposta é centrada no aluno, onde se procura que este aprenda por si próprio; suas características essenciais são a organização temática em torno de problemas, a integração interdisciplinar imbricando componentes teóricos e práticos e a ênfase no desenvolvimento cognitivo. Tal método rompe com toda a cultura de aprendizado na qual o professor “despeja” conhecimentos e o aluno restringe-se a “receber” os conteúdos mastigados sem nenhum esforço maior de elaboração do pensamento.
A Origem – ou origens
A PBL tem origem conceitual nas idéias do psicólogo americano Jerome Seymour Bruner e do filósofo Jonh Dewey (1859–1952). Bruner foi o principal idealizador da proposta educacional denominada Learning by Discovery (Aprendizagem pela Descoberta) que consistia, em essência, no confronto de estudantes com problemas e na busca de sua solução por meio da discussão em grupos. A filosofia de Dewey fundamentava-se nos conceitos da educação como reconstrução da experiência e crescimento e na motivação como força motriz da aprendizagem.
Entretanto, os iniciadores dessa nova estratégia de ensino na Universidade de McMaster apontam o surgimento da PBL a partir de uma experiência embrionária na Business School de Harvard; recriada na escola médica de MacMaster e, a partir de então, disseminada para outras universidades, em especial para a Universidade de Maastrich, Holanda, onde se desenvolveu e adquiriu uma fração significativa do alicerce empírico que hoje sustenta sua doutrina.
Inicialmente aplicada nos cursos da área de saúde, a PBL acabou adotada no ensino de múltiplas áreas profissionais em vista da mudança de olhar que essa estratégia metodológica proporciona aos estudantes; em especial pelo seu caráter formativo, à medida que estimula uma atitude ativa do aluno em busca do conhecimento e não meramente informativa como é o caso da prática pedagógica tradicional.
A proposta pedagógica
A proposta pedagógica da PBL baseia-se no estudo de problemas propostos com a finalidade de fazer com que o aluno estude determinados conteúdos. Tal proposta sustenta-se (1) nos blocos ou unidades pelos quais se estrutura o currículo, (2) nos problemas ou questões apresentadas aos alunos e (3) nos grupos tutoriais. A seguir apresentaremos os principais aspectos de cada um desses componentes.
O currículo: O currículo é dividido em módulos ou unidades temáticas, que não são disciplinas, mas sim envolvem disciplinas variadas. Cada unidade temática é subdividida vários temas. Cada tema deve cobrir uma parte do conteúdo proposto utilizando-se de um problema (uma ou mais questões) elaborado pela unidade educadora para este fim.
O problema: Um problema deve levar em consideração os conhecimentos prévios do aluno (mesmo que seja a experiência com o próprio corpo ou o senso comum), proposto de modo simples, objetivo e direto. A seguir damos um exemplo de um problema utilizado na Faculdade de Medicina da Universidade de Maastricht destinado a levar os alunos a estudarem os mecanismos da febre:
“CALAFRIOS”: Em uma tarde fria de maio você se sente “cansado”- suas pernas estão ”pesadas”, os seus olhos estão “ardidos”, um pouco lacrimejantes. Mais tarde você sente alguns calafrios. Eles aumentam e embora você se deite e se cubra com vários cobertores, não consegue sentir-se confortável e treme continuamente. Isto dura uma hora e meia. A seguir, você começa a sentir calor e mesmo depois de tirar todas as cobertas, ainda transpira abundantemente. Sua mãe diz circunspectamente que você pegou uma “gripe”. Explique os fenômenos.
Este problema baseia-se na experiência prévia do aluno, pois todos já tiveram sintomas semelhantes. Todos têm algumas hipóteses sobre a febre. Além disso, permite discutir sazonalidade da gripe, mecanismos de produção de febre, termorregulação e farmacologia dos antipiréticos.
O grupo tutorial: Os alunos trabalham em pequenos grupos (8-10 alunos), chamados de grupo tutorial, no qual o problema é analisado e os objetivos da aprendizagem definidos. O grupo tutorial atua com o apoio de um tutor, cujas atribuições são estimular o processo de aprendizagem dos estudantes e de ajudar o grupo a conduzir o ciclo de atividades da PBL, utilizando-se de diversos meios, dentre eles a apresentação de perguntas – e não de respostas, como é papel do professor nos currículos tradicionais – e sugestões. Os estudantes, estabelecidos no grupo tutorial, identificam o problema, investigam, debatem, interpretam e produzem possíveis justificações e soluções ou resoluções, ou recomendações. Os alunos devem ter a sua disposição e devem ser estimulados a utilizarem os recursos da internet, biblioteca, livros e artigos de periódicos como fontes de informações.
Além dos grupos tutoriais são oferecidas aos alunos outras atividades curriculares tais como o treinamento de habilidades (aulas práticas) e estágios. São realizadas avaliações ao final de cada módulo temático. Ocorrem avaliações periódicas por meio de provas escritas e provas práticas, sendo que 4 vezes por ano é realizada um avaliação especial, chamada avaliação progressiva, composta de 250 questões de múltipla escolha e idênticas para todos os alunos do primeiro ao sexto ano. Sua finalidade é avaliar o aluno e sua progressão e tornar alunos, turmas e objetivos gerais da formação do profissional compatíveis e integrados. As avaliações são parte fundamental do currículo, pois o aluno recebe amplo “feedback” de seu desempenho nas avaliações, de modo a poder corrigir seus rumos de estudo.
Dificuldades e importância do método PBL
Acostumados a “receber” passivamente as informações, os alunos quando colocados em uma situação que exige maior atividade, trabalho e esforço mostram-se, inicialmente, resistentes ao novo método; com o tempo essa resistência é superada.
Em razão do hábito no ensino tradicional, o que não lhes traz mais nenhuma dificuldade, alguns professores apresentam certa relutância na aplicação do método; principalmente pelo custo demandado na elaboração dos textos dos problemas visto que isto requer certa dose de criatividade. Além disso, a condução das discussões no grupo tutorial também se apresenta como um elemento que requer esforço e treino por parte dos professores, mas nada que não possa ser suplantado.
Um dos pontos importantes a se destacar na PBL é o despertar, no aluno, da sua autonomia como ser pensante. Minha experiência com a PBL nunca foi completa, pois não tive a oportunidade de trabalhar em um local onde se aplicasse tal método; entretanto, desde há muito tempo, tento aplicar em minhas aulas alguns dos conceitos ou princípios básicos propostos pela PBL. Em minha opinião, que pode ou não ser compartilhada por outros, esta autonomia de pensamento não apenas contribui para a carreira profissional do indivíduo, mas também, e talvez principalmente, contribui para a formação do indivíduo como um ser social e político, agente de seu meio e não mais paciente.
Bibliografia
Azevedo, M.N. 2006. Novos papéis para alunos, professores e gestores: O futuro do ensino superior está nas metodologias alternativas. Publicado em 22/08/2006 http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?materia=12043 (acessado em 16/04/2008).
Honório, E. et al.. O Ensino de Jornalismo e a Metodologia Baseada em Problema (PBL): Relato de uma Experiência. 7º. Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, Florianópolis/SC. http://www.fnpj.org.br/grupos.php?det=50 (acessado em 16/04/2008).
Mamede, S. & Penaforte, J. (org.) (2001). Aprendizagem baseada em problemas. Fortaleza: Hucitec.
Sakai, M. H.; Lima, G.Z. (1996). PBL: uma visão geral do método. Revista Olho Mágico, 2(5/6):1-4.
Sobral, D.T. (1994). Aprendizagem baseada em problemas: Efeitos no aprendizado. R. Bras. Educ.Méd., 18(2):61-64.
Thomson, J.C. (1996). PBL: Uma proposta pedagógica. Revista Olho Mágico, 2(3/4):7.


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