Alcio Braz – Um monge psicanalista

por Caio Garrido*

 

Alcio Braz, um monge psicanalista, desperta a curiosidade de todos por suas atividades e postura no mundo.

Nesta entrevista, esclarece aspectos que tornaram a integração das duas práticas uma realização possível.

 

Alcio Braz é médico psiquiatra, formado pela UFRJ (IPUB), psicanalista (SPCRJ) e mestre em Antropologia Social (PPGAS-MN-UFRJ). Entre seus trabalhos, o principal foi como chefe do Serviço de Saúde Mental do Hospital da Lagoa, Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro, sendo coordenador de Humanização e membro da Comissão de Gerenciamento da Dor e dos Cuidados Paliativos.

Alcio Braz Eido Soho, monge, nascido no Rio de Janeiro em 1956, praticou o Zen inicialmente em 1992 no Templo (Rinzai) de Soun-ji, Ueno, Tóquio, sob orientação de Bunkei Yamamoto Sensei. Foi encaminhado por Yamamoto Sensei para praticar sob supervisão de Eido Shimano Roshi, na Zen Studies Society em Nova Iorque, em 1993 e 1994. Em 1995 passou a praticar sob supervisão do Monge Marcos Ryokyu e de Mestre Ryotan Tokuda, no Rio de Janeiro, fazendo os votos de monge soto zen perante Mestre Tokuda e a Sangha em 12 de outubro de 2001, em Pirenópolis, Goiás, no terreno do futuro Mosteiro de Eisho-ji.

Desde 1999 orienta a Sangha Zen do Rio de Janeiro, inicialmente numa sala no Leblon, depois no Templo Zen do Jardim Botânico.

 

 

– Como é ser um monge psicanalista? Em algum momento isso foi um conflito para você?

 

Na verdade, não, até porque misturo o monge, o psicanalista, o psiquiatra, o antropólogo (tenho mestrado em antropologia social), o médico, o pai, o marido (viúvo agora), o filho, o amigo, o colega, enfim, todos esses papeis, em um caleidoscópio ambulante, uma contradição ambulante. Em cada papel há uma prática, algumas verdades provisórias, alguma arrogância, alguma modéstia, e muitas ilusões, e o trabalho de ir desfazendo as ilusões com mais ou menos delicadeza faz parte de todos eles.

Como ser humano, ser monge, para mim, é a realização plena de meu potencial, colocando o Buda como meu modelo, o Dharma como a prática que ele ensinou, a Sangha como a prática no coletivo, a roda em ação. Isso não se choca com a Psicanálise, pelo menos como eu a vejo.

 

– Como você conseguiu integrar a prática budista ao exercício da atividade psicanalítica?

 

Ocorreu naturalmente. À medida que fui praticando, a psicologia budista foi se incorporando à minha prática psicanalítica e psiquiátrica, e aos poucos os pacientes que me procuravam já sabiam de minha prática e queriam ou praticar também no centro zen mantido por nós, ou pelo menos serem atendidos por um profissional que não achasse que a Psicanálise, a Psiquiatria ou o Budismo fossem verdades monolíticas ou inquestionáveis.

– Existem aspectos inconciliáveis entre Budismo e Psicanálise, ou só podemos obter benefícios com essas duas fontes de autoconhecimento?

 

Na minha visão não há nada inconciliável. Acho que a psicanálise se ocupa de fenômenos na esfera daquilo que no budismo chamamos de manas e manovijñana (conceitos da escola Yogachara do budismo, um dos fundamentos do zen-budismo), e esse tratamento pode ser essencial para permitir que se pratique verdadeiramente o Dharma sem tentar transformá-lo em um tratamento psiquiátrico ou psicanalítico, o que não é; da mesma forma que não tratamos diabetes com zazen.

 

– A Psicanálise tem uma visão bem específica em relação ao “Desejo”, assim como o Budismo também a tem. Como concatenar as duas visões?

 

Pessoalmente prefiro a tradução “apego” como fonte de “dukkha”, ou angústia existencial. O apego se relaciona com o desejo. A questão na psicanálise é aceitá-lo e reconhecê-lo, possibilitando uma liberdade existencial de escolha –devo tentar satisfazer ou não esse desejo? Ele é saudável ou trará sofrimento? O budismo ajuda na possibilidade de se poder aquietar no centro e não ser arrastado passivamente pela correnteza dos impulsos. Nesse sentido, os dois podem ser sinérgicos. Agora, algumas pessoas usam uma compreensão errônea do budismo para renegar o desejo e a condição humana. Esse é um mal que acomete todas as práticas espirituais e suas manifestações religiosas. Não considero o budismo uma religião, mas sim uma prática.

 

– A meditação pode ser considerada uma forma direta de entrar em contato com a verdade emocional? 

Na medida que em zazen somos instados a ficar sentados quietos com o que aparecer, há uma possibilidade de observarmos a verdade emocional momentânea, ao mesmo tempo em que não nos apegamos a ela como definitiva ou eterna.

 

*Caio Garrido é editor associado da Revista Tavola


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