por Lezio Bueno Jr.
Eu tenho angústias, e confesso que de vez em quando sofro com elas. De fato, minha infância foi meio complicada. Houve um mosaico de problemas na família, sabe como é… Porém, não tenho do que reclamar. Afinal, não sou pobre, minha família é grande, eu e a maioria dos meus amigos e amigas têm curso superior, a cidade em que moro também é grande… Particularmente, estou me virando bem e sinto cada vez mais maturidade conforme junto dinheiro devagar, e conforme aprendo coisas no trabalho. No tempo livre, brinco com minha pequena filha com orgulho, pois parece que conforme a maturidade avança, a gente se sente cada vez mais capaz de acompanhar o desenvolvimento de uma criança, educando-a. Mas é importante educá-la do jeito correto, pois não quero que ela passe pelo que eu passei. Nossos pais sofreram muito, e por esse motivo cometeram alguns erros quando nos criaram. Portanto: nós, os pais e mães da nova geração, não podemos cometer os mesmos erros! Aliás, por falar nisso, parece que a geração que nos antecedeu teve que batalhar muito para nos sustentar.
É verdade! Admiro muito meus pais… Avós… Apesar de tudo… Apesar de tudo, todos eles são (ou foram) verdadeiros batalhadores. Guerreiros mesmo… Assim, eu gosto quando anunciam, na televisão, alguma nova novela que tenha uma personagem batalhadora. Além disso, de vez em quando aparecem histórias em jornais ou documentários que também mostram pessoas batalhadoras, guerreiras, que sofrem muito para alcançarem o que desejam. O interessante é que no meio esportivo também surgem histórias de atletas batalhadores, que são filhos criados por famílias batalhadoras, geralmente de classes sociais mais pobres. Enfim, essas histórias de superação, de luta e de suor nos ensinam muitas coisas, não importando se são reais ou fictícias. No fim, são verdadeiras lições de vida! Eu acho bom que a televisão continue mostrando esses exemplos de luta e superação.
Acho que essas pessoas batalhadoras são verdadeiros exemplos de superação, que sofreram muito no passado. Aliás, considerando as histórias que vejo pela televisão, ou que ouço nas conversas por aí, muitas pessoas sofrem ainda hoje. Por exemplo, os pobres, ou deficientes físicos, etc… São verdadeiros lutadores! Eles merecem nossa ajuda. No ano passado cheguei a doar 15 reais ao Criança Esperança, por dó e admiração desse tipo de gente. Já é alguma ajuda, certo? Acho que é o mínimo que posso fazer. E o engraçado é que eu me sinto feliz por ajudar. Com orgulho mesmo!
Bom… Sinto um pouco de vergonha ao dizer isso mas… Apesar de eu ter orgulho de minha filha, apesar de eu sentir minha evolução no trabalho, apesar de eu estar construindo meu próprio patrimônio, apesar de eventualmente ajudar projetos assistenciais… De vez em quando eu… Nossa, é difícil falar!
Não sei se vale a pena falar… Assim… É porque, no fundo, eu acho que não tenho do que reclamar! Afinal, minha vida é muito boa e tranquila. Principalmente em comparação a esses verdadeiros exemplos de luta e superação que mencionei anteriormente. No meio disso tudo, acho que os problemas que vão pela minha cabeça são insignificantes, entende? Tipo assim: largue mão de frescura! Veja quanta gente sofrendo por aí! Guerras, protestos, desajustes sociais, etc. Conhece aquele papo que diz que não importa quão bom você seja em algo, pois sempre haverá pelo menos 1 milhão de pessoas no mundo melhores do que você? Então! Parece que o mesmo se aplica para o raciocínio oposto: não importa o enorme sofrimento que você tem com isso ou aquilo, pois sempre haverá pelo menos 1 milhão de pessoas no mundo sofrendo coisas parecidas ou muito piores.
Entendeu? Sei lá… Parece que as minhas queixas internas (que eu guardo comigo por certa vergonha) são muito pequenas para merecerem atenção de qualquer pessoa. Porém, vou confessar: essas questões me incomodam, viu? Às vezes quase doem!
Mas isso deve ser algum problema meu, que deve ser bem específico. Sabe por que? Em geral, meus amigos e amigas estão bem, e meus familiares também. É claro que pinta uma fofoca aqui e outra ali, de vez em quando… Aliás, às vezes é bom levar um papo de fofoca, não é? Parece que livra um peso da gente, ainda que por um momento breve… Nossa… Que maldade, deixe pra lá. Mas, enfim: não compensa ficar reclamando, queixando-se de angústias tão pequenas, em pleno… Sei lá… Churrasco, por exemplo. Ou num bar, na sexta à noite. Eu até tenho umas amizades mais íntimas, com quem costumo compartilhar essas, digamos, coisinhas. Nem todas as coisinhas, é claro! Aliás, faz muito tempo que não conversamos… Preciso ligar, ou mandar alguma mensagem… É que o pessoal está trabalhando muito, e além disso vieram os filhos, coisa e tal. Falta tempo pra todo mundo.
Enfim, voltando ao assunto… Pensando bem, não vou me queixar de nada. Não! Temos mais é que agradecer por nossas vidas, por termos comida à mesa todos os dias, por termos bons antepassados (que foram, ou são, verdadeiros batalhadores), por termos nossos filhos, por termos bons empregos e por termos condições de ajudar os mais necessitados. No fim das contas, são estas as coisas que mais importam. O resto a gente empurra com a barriga, como se diz… Vai levando…
*Lezio Bueno Jr. é editor associado em ciências do cérebro e mente


