por Luis Fernando S. Souza-Pinto*
18 de maio é a data em que Araceli Cabrera Crespo, de nove anos incompletos, desapareceu da escola onde estudava para nunca mais ser vista com vida. A menina foi estupidamente martirizada. Araceli foi espancada, estuprada, drogada e morta numa orgia de drogas e sexo. Seu corpo, o rosto principalmente, foi desfigurado com ácido. Seis dias depois do massacre, o corpo foi encontrado num terreno baldio, próximo ao centro da cidade de Vitória, Espírito Santo. Seu martírio significou tanto que esta data se transformou no “Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”(www.censura.com.br).
Para iniciar meu texto gostaria de citar minhas fontes, minhas referências e como foi a metodologia de minha pesquisa. Entre no site www.youtube.com e no campo de buscas digite as palavras “ninfeta”, “novinha”, “dançando”, “rebolando” e você terá um triste cenário da infância e adolescência no Brasil. Adianto para vocês que nesses vídeos aparecem adolescentes, na maioria das vezes com menos de 18 anos, seminuas, rebolando convulsivamente ao som de uma batida primitivas. Abaixo vão trechos que pude selecionar, com ajuda do google.com. Neste MC Frank sem nenhuma hipocrisia revela em que direção sua poesia segue:
“Vai novinha vai novinha/Eu vou te deixar maluca tu vai ficar suadinha/ Vai novinha vai novinha/Eu vou te deixar maluca tu vai ficar suadinha/Vai fazer tu delirar/ Aqui é chapa quente é vara linguadinha/na xotinha na bundinha/no peitinho na boquinha” (Vai Novinha, MC Frank)
Novinha é o terno utilizado pelos “funkeiros” para designar a menina, entre 14 e 18 anos, brancas, ricas com corpo esculturado na maioria das vezes em academias caras da zona sul do Rio de Janeiro. Os bailes funks viraram febre e atraem não só as pessoas das comunidades como também as garotas novinhas mais ricas da cidade. Essas meninas gravam vídeos caseiros, sozinhas ou em grupo de duas ou três amigas, e postam no YouTube. E aí, desenvolve-se uma fantasia, um mito moderno da menina que sobe o morro em busca da virilidade e o sexo ardente dos machos pobres da favela. Um mito moderno que me parece releitura da época da escravidão no Brasil, em que a alta sociedade reprimia e escravizava os negros, mas sua virilidade e potencia provocavam grandes fantasias sexuais nas mulheres e nos homens. Os homens odiavam os negros, pois eram mais fortes e bonitos e a virilidade desses animais humanos devia ser castigada com chicote e maus tratos. Penso que a escravidão seletiva dos negros é resultante, em boa parte, de fantasias homossexuais do homem branco com os negros.
Neste trecho, O Bonde do Tigrão nos conta uma história de sexo não consentido, o velho Abuso Sexual ou estupro que a classe média tanto horroriza:
“Mãos para o alto novinha/Porque?/Por que hoje tu tá presa tu tá presa/E agora eu vo falar os seus diretos/ Tu tem direito de sentar, tem o direito de kikar/Tem o direito de sentar, de quicar, de rebolar/ Você também tem o direito de ficar caladinha” (Prisoneira, Bonde do Tigrão
O abuso sexual infantil é crime, a infância deve ser protegida e não vou discutir os aspectos legais do assunto. Meu interesse é analisar o sentido dessa palavra atualmente. Vemos na internet que meninas de 13, 15 anos estão realmente interessadas em colocar seus corpos esculturais em poses sensuais à venda. Os próprios pais e a sociedade incentivam esses atos. Vou dar exemplos: vá a uma banca de revista e conte quantas revistas têm em sua capa um corpo feminino escultural, uma bunda gigante, ou meninas e mulheres com sorrisos sensuais. Veja a temática dessas revistas. Isso indica o valor alto que damos ao sexo. Navegue na internet pelo Google e coloque o termo “menina 14 anos”, vá ao link “imagens”, me diga o que você vê nesse momento? Penso que o efeito da valorização do corpo como uma das únicas formas de existência e a facilitação da comunicação via internet vai ocasionar daqui 10 ou 20 anos, mudanças profundas na mente humana. (1) os relacionamentos serão cada vez mais efêmeros e difíceis; (2) a linguagem ficará comprometida e (3) a psicopatologia dos relacionamentos humanos será uma das grandes preocupações dos Estados Nacionais.
Neste trecho, MC Martinho é virulento e nos dá uma amostra em detalhes dos procedimentos de tortura, caso “a tal Novinha”, não o respeite:
“É melhor não falta com respeito/suja o meu nome perante a favela/que eu te deixo esticada no chão/ do tiro na sua mão e quebro suas pernas/ eu vo ti levar pro microondas mais antes eu rasgo/seu corpo na bala/pra família te reconhecer/ só mesmo no exame da arcada dentária” (Novinha, Mc Martinho)
Nem vou comentar esse trecho e já finalizo meu ensaio. Não vou dizer que esses funkeiros são criminosos e que precisam ser presos. Eles, nos agradando ou não, são poetas. Poetas no sentido de que conseguem como ninguém absorver o “espirito do tempo” (Zeitgeist), conseguem colocar em palavras o que um ser humano comum não consegue, nos mostrando duras realidades. A dura realidade é que as crianças não são mais crianças como costumávamos pensar, que o abuso sexual deve ser pensado em termos mais amplos e que a sexualidade humana – complexa por natureza e processada em milhares de anos de evolução biológica – está sendo negada e reduzida aos mais baixos valores humanos. E tudo isso debaixo dos nossos narizes.
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* é editor chefe da Revista Tavola

