Gustavo Olzanski Acrani é profissional da área de Virologia, com Doutorado em Ciências e formado em Biologia. É tecladista da banda Motormama e autor do livro Bandida! E ainda falta muita coisa pra fazer! gacrani@gmail.com / www.batonga.com.br/bandida.htm
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O tema deste mês é ficção, e sabendo que a nossa vida pode estar sendo sonhada por algum deus em algum lugar, podemos imaginar que ela não passa de uma obra ficcional. Levando por este ponto de vista, sinto-me à vontade para contar a vocês uma história que aconteceu comigo no final do ano passado.
Estava voltando sozinho de Maringá, onde passei o Natal. Dirigia calmamente e abaixo do limite de velocidade numa rodovia bastante esburacada e não muito movimentada. Eram sete horas da tarde e estava começando a anoitecer. E eu estava lá, quase na beirada da fronteira Paraná-São Paulo quando na distância eu vi uma mulher parada no acostamento da pista.
Conforme fui me aproximando, pude perceber que ela era alta, magra, loira, devia ter uns 30 anos e estava vestindo uma saia bem curta e uma blusinha branca. A única coisa estranha é que ela estava carregando uma ferramenta enorme ao seu lado, uma espécie de foice. E preciso dizer outra coisa, espero que minha esposa me perdoe, mas ela parecia ser muito bonita.
E estava pedindo carona, é lógico. Não poderia ser um clichê mais previsível!
Fui diminuindo a velocidade. E conforme me aproximei da mulher, fui parando o carro no acostamento. E, espero que minha esposa perdoe novamente, mas ela era muito gostosa! Vocês nunca vão conseguir imaginar como ela era bonita, pois não dá para descrever. Saibam apenas que era uma beleza estratosférica, de fazer chorar. Enfim…fiz o que qualquer um faria: parei o carro e dei carona para ela.
Com licença, mas agora preciso fazer um parêntese. Na verdade, eu não tive a intenção de parar para dar carona para essa mulher tão maravilhosa. Quero que fique bastante claro para minha esposa que uma força que provavelmente veio do além me fez parar o carro. A mulher tinha um magnetismo tão intenso, que eu, como um pobre coitado sob efeito de magia negra ou vodu, lhe dei carona. Foi isso, meu bem…Eu juro!
Agora voltando à história:
Ela colocou a foice no banco de trás e sentou-se ao meu lado, agradecendo. Continuei na estrada.
- Você conhece Santa Cruz das Três Pedrinhas? – perguntou a garota com sua voz suave e melodiosa enquanto abotoava o sinto de segurança. O sinto fez levantar seus peitos fartos e carnudos e…ah! Não importa, vamos continuar sem esses detalhes sórdidos!
- Acho que fica no meu caminho. Se não me engano a uns 50 km daqui. – respondi, hipnotizado.
- Se você pudesse me deixar lá eu agradeceria…
- Sem problema, senhorita.
Voltei à estrada.
- Vai usar isso aí pra quê? – perguntei apontando para a foice que ela havia depositado no banco de trás do meu carro.
Ela não respondeu.
Vi que ela estava meio agitada, parecia estar com calor. Sugeri:
- Quer que eu ligue o ar condicionado?
Ela olhou para mim, como se estivesse me devorando, e respondeu:
- Você se importa se eu voltar para minha forma original?
Não entendi a pergunta.
- Forma original? Como assim?
- Olha, querido. Não dá pra explicar.
De repente uma fumacinha negra começou a sair por debaixo do banco. É sério, fora de brincadeira! A fumaça tomou conta do carro todo, quase não conseguia enxergar por onde estava indo. Depois que a fumaça dissipou eu levei um susto do cão. Do meu lado, no lugar daquela maravilhosa loira estava uma figura esbranquiçada, magrela, parecendo um esqueleto, coberta por um manto negro. Foi isso o que ela quis dizer com “forma original”? Credo!
Ela abriu o vidro, respirou o ar lá de fora e disse aliviada:
- Puta merda, se eu ficasse mais um minuto naquela forma ia acabar explodindo!
Olhei para o lado, bastante assustado. Comecei a diminuir a velocidade com a intenção de parar o carro ou até mesmo saltar pra fora e sair correndo. A figura que estava agora ao meu lado era muito assustadora!
De alguma forma ela percebeu minha intenção e ordenou:
- Não pare o carro. Preciso chegar em Santa Cruz das Três Pedrinhas em menos de uma hora!
É, vocês já devem ter sacado o que estava acontecendo, mas para mim, que estava lá vendo aquilo tudo, foi difícil acertar as engrenagens da cabeça para que ela funcionasse e percebesse o que estava acontecendo.
Olhei pra figura branquela vestida de manto negro. Depois dei uma olhadinha com o canto do olho para a foice que estava acomodada no banco de trás. Acho que não precisava de mais nenhuma informação. Gaguejando e tremendo o corpo todo, eu tentei:
- Vo. Você…é…a…mooorrr…
Ela me interrompeu:
- Ah! Desculpe, não me apresentei. Sou a Morte!
E me estendeu a mão pálida e ossuda.
Eu fiquei mudo.
- Pode ficar tranqüilo, não vou te levar hoje. Você vai embora no dia…deixe-me checar no meu PalmTop essa informação…
PalmTop?
- Não! Não precisa não…eu não quero saber! – respondi desesperado.
- Não quer saber o dia que vai bater as botas? – respondeu a Morte, intrigada, enquanto mexia com uma canetinha o seu pequeno PalmTop.
- Não quero saber. Deixe-me viver tranqüilo.
A Morte deu um pequeno salto para trás e esbugalhou os olhos enquanto olhava para as informações no PalmTop. Eu percebi que ela havia ficado espantada e perguntei:
- O que foi?
- Puta merda, você não vai gostar disso aqui não.
- O que? Eu vou morrer logo?
- Não é isso…você vai viver bastante, mas vai morrer por causa de uma hemorróida mal cuidada. Que desagradável, meu amigo!
Engoli em seco.
- Não sabia que hemorróida podia matar… – afirmei, ressabiado.
- É…nem eu…e olha que sou especialista no assunto!
- Especialista em hemorróida?
- Não, imbecil…especialista em mortes! – respondeu com uma voz tenebrosa.
- E o que eu posso fazer?
- Não sei…parar de comer coisas apimentadas? – e deu uma risadinha sarcástica.
- Não tem como mudar isso aí, Dona Morte?
- O que eu posso fazer? Essas coisas não se mudam…já vêm no programa.
- Sei lá, coloca aí um acidente de carro, queda de avião, assalto a mão armada. Qualquer coisa menos hemorróidas!
Ela fez uma cara parecida com a cara que o pessoal que trabalha no caixa de banco faz quando não sabem te explicar porque aquele valor que aparece no extrato não bate com os cheques que você deu, entende? Não? Bom…imagina qualquer outra comparação então.
- Não posso fazer nada, Gustavo. Vai ser hemorróida mesmo. Mas eu posso dar um jeito de fazer com que seu neto seja proctologista, talvez ajude em alguma coisa.
Em alguns minutos chegamos em Santa Cruz das Três Pedrinhas. Parei o carro e em poucos segundos a Morte assumiu a forma de um garotinho de uns 12 anos de idade. Ela saiu do carro, pegou sua foice e agradeceu a carona.
- Se cuida, meu querido, a gente se vê daqui uns anos.
Ainda tremendo, e com o coração agoniado, voltei à estrada rumo a Ribeirão Preto. Quando aqui cheguei fiquei sabendo pelo jornal que naquela noite logo depois que deixei a Morte na beira da estrada, 125 pessoas haviam morrido em um tenebroso incêndio em Santa Cruz das Três Pedrinhas. Senti-me um pouco culpado.
Quando deitei ao lado de minha esposa na cama, lhe dei um forte abraço e confessei:
- Sabe, meu bem? Acho que você deveria colocar menos pimenta na comida, isso faz mal pra saúde.
FIM?

