“Ó morte, tu que és tão forte… Que matas o gato, o rato e o homem“

por Eliana Aparecida Gazola*

O título deste ensaio é parte do refrão da música “Canto para minha morte”, de Raul Seixas, e retrata a força que a morte tem na vida do ser humano. Um grande paradoxo… ou não… morte e vida…

Pensei em escrever aqui o que penso sobre a morte e, até mesmo, minha crença religiosa diante desse fato inevitável com o qual ninguém quer se deparar, porém resolvi escrever sobre duas obras de dois poetas, “Se eu morresse Amanhã!”, de Álvares de Azevedo, e “Clarisse”, de Renato

Renato Russo e Álvares de Azevedo estão entrelaçados em suas expressões. O poema “Se eu morresse amanhã!”, deste, e a canção “Clarisse”, daquele, apresentam traços melancólicos, assim como um profundo gosto pela morte.

Álvares de Azevedo provavelmente fora favorecido, em suas obras, pelo meio literário paulistano, impregnado de afetação byroniana, no que se diz respeito aos componentes de melancolia, sobretudo a previsão da morte, que parece tê-lo acompanhado como demônio familiar. Imitador da escola de Byron, Musset e Heine, tinha sempre à sua cabeceira os poemas desse trio de românticos por excelência, e ainda de Shakespeare, Dante e Goethe.

Proferiu as orações fúnebres por ocasião dos enterros de dois companheiros de escola, cujas mortes teriam enchido de presságios o seu espírito. Era de pouca vitalidade e de compleição delicada; o desconforto das “repúblicas” e o esforço intelectual minaram-lhe a saúde. Nas férias de 1851-52, manifestou-se a tuberculose pulmonar, agravada por tumor na fossa ilíaca, ocasionado por uma queda de cavalo, um mês antes. A dolorosa operação a que se submeteu não fez efeito. Faleceu às 17 horas do dia 25 de abril de 1852, em domingo da Ressurreição. Como quem anunciasse a própria morte, no mês anterior, escrevera a última poesia sob o título “Se eu morresse amanhã!”, que foi lida, no dia do seu enterro, por Joaquim Manuel de Macedo.

Já a vida de Renato oscilava entre tristezas e alegrias. Por força de sua própria personalidade, Russo permanecia constantemente nas oscilações de tristezas. E sua morte também aconteceu no meio desse paradoxo.

O líder da Legião Urbana, depois de descobrir que estava com AIDS, isolou-se da vida, em seu apartamento, e recusava qualquer tipo de tratamento.

Renato desenvolveu uma espécie de anorexia e só conseguia tomar água de coco e, para piorar, deprimiu-se profundamente.

No dia de sua morte, disse a sua mãe: ” Estou em paz, mãe. Tudo o que eu fiz de  certo e de errado já conversei com Deus”.(cf. Artur Dapieve, 2000, pag. 166)

 

“SE EU MORRESSE AMANHÃ!”  E “CLARISSE”

 

Se eu morresse amanhã !

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

 

Se eu morresse amanhã !

Quanta glória pressinto em meu futuro,

Que aurora de porvir e que manhã !

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã !

 

Que sol ! que céu azul ! que doce n’alva

acorda a natureza mais louçã !

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã !

 

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã…

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã !

 

Vamos analisar o que diz o poema:

 

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã !

 

A morte já se faz presente nos pensamentos do eu lírico. É como se ele fizesse um “balanço” de sua vida para, assim, verificar quem possuía considerações em relação a ele.

Não há preocupação e interesse com o mundo externo, pois a preocupação do eu lírico não é em relação à dor que sua irmã e sua mãe sentiriam se ele morresse, mas  mostra que, para poucas  pessoas, ele faz falta. Isso fica claro ao analisarmos a expressão “ao menos”.

Segundo o dicionário Antônio Houaiss, “ao menos” significa entretanto, todavia e estas, conforme o mesmo dicionário, significam conjunções adversativas, que indicam ideias contrárias. Notamos que a morte do eu lírico não causaria dor a ninguém, mas sua mãe e sua irmã sofreriam por ele. Assim, o ego está praticamente desprovido de autoestima, o personagem não se considera importante.

Na segunda estrofe:

Quanta glória pressinto em meu futuro,

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã !

 

O eu lírico pressente um futuro claro e glorioso. Se o eu lírico morresse no dia seguinte, perderia tudo da vida, portanto choraria por não ter  o que o faria feliz.

Com o uso do pretérito mais-que-perfeito “perdera”, fica claro que todo o futuro já foi perdido. A glória desejada será alcançada após a morte.

Conforme Prof. Pasquale Cipro Neto (Revista Cult 57, pag 23):

 

… o “perfeito” (do latim: “perfectu”) de nossos pretéritos (imperfeito/perfeito/mais-que-perfeito) significa até o fim, “feito completamente”, e vem do particípio de “perfazer”, em cuja formação entra o prefixo latino “perque”, no caso, indica ideia de conclusão…

 

 

O uso  do pronome demonstrativo “essa” mostra que as coroas estão distantes do eu lírico.  A aurora, a manhã, a glória, tudo isso está longe dele: é algo que ele perdeu na vida (passado) e pode encontrar na morte (futuro próximo).

Essa análise é possível, ao observarmos as definições de Celso Cunha para os valores dos pronomes demonstrativos. Afinal, “esses”, em relação ao tempo, refere-se a passado ou futuro pouco distante.

A terceira estrofe (” Que sol! Que céu azul! Que doce n’alva /Acorda a natureza mais louçã!/Não me batera tanto amor no peito / Se eu morresse amanhã!”) mostra muita certeza de que, ao morrer, o eu lírico encontrará a felicidade. O caminho da glória é representado por elementos da natureza. Nessa estrofe, é citado o amor como algo que já não acontece mais:

 

“Não me batera tanto amor no peito”

 

Já nos dois primeiros versos da  4 ª estrofe; notamos que acontece a perda da capacidade de amar.

 

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã…

 

O eu lírico refere-se à dor que consome sua vida. Por meio da oração adjetiva restritiva que devora a ânsia de glória, o dolorido afã, nota-se que existem várias dores de viver, mas a que ele sente devora, acaba com as possibilidades de felicidade.

Nos dois últimos versos da estrofe “A dor no peito emudecera / Se eu morresse amanhã!”, notamos que, para a felicidade do eu lírico, é necessário que a morte física o consuma, pois a morte psicológica já aconteceu: a dor no peito emudecera (já está morto interiormente), agora, precisa morrer fisicamente, para que realmente a dor não  o incomode mais.

O eu lírico é um ser melancólico, pois demonstra  uma tristeza profunda, revelando que o motivo de sua tristeza é a doença do seu próprio ego, pois não é revelada nenhuma perda concreta que desencadeie tanta dor e sofrimento.

Existe uma cessação de interesse pelo mundo externo, o egocentrismo é muito marcante e a fuga da realidade, por meio da morte, é constante.

Vejamos, a seguir, a letra da música Clarisse, de Renato Russo.

 

Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado

Quem diz que me entende nunca quis saber

Aquele menino foi internado numa clínica

Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças

Dos sonhos que se configuram tristes e inertes

Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha

E Clarisse está trancada no banheiro

E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete

Deitada no canto, seus tornozelos sangram

E a dor é menor do que parece

Quando ela se corta ela esquece

Que é impossível ter da vida calma e força

Viver em dor, o que ninguém entende

Tentar ser forte a todo e cada amanhecer

Uma de suas amigas já se foi

Quando mais uma ocorrência policial

Ninguém entende, não me olhe assim

Com este semblante de bom samaritano

Cumprindo o seu dever, como se fosse doente

Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente

 

Nada existe pra mim, não tente

Você não sabe e não entende

E quando os anti-depressivos e os calmantes não fazem mais efeito

Clarisse sabe que a loucura está presente

E sente a essência estranha do que é a morte

 

Mas esse vazio ela conhece muito bem

De quando em quando é um novo tratamento

Mas o mundo continua sempre o mesmo

O medo de voltar pra casa à noite

 

Os homens que se esfregam nojentos

No caminho de ida e volta da escola

A falta de esperança e o tormento

De saber que nada é justo e pouco é certo

 

E que estamos destruindo o futuro

E que a maldade anda sempre aqui por perto

A violência e a injustiça que existe

Contra todas as meninas e mulheres

 

Um mundo onde a verdade é o avesso

E a alegria já não tem mais endereço

Clarisse está trancada em seu quarto

Com seus discos e seus livros, seu descanso

 

Eu sou um pássaro

Me trancam na gaiola

E esperam que eu cante como antes

 

Me trancam na gaiola

Mas um dia eu consigo existir

E vou voar pelo caminho mais bonito

Clarisse só tem 14 anos

 

De acordo com uma entrevista de Dado Villa-Lobos, exibida na internet, esta é uma canção autobiográfica (Internet, http://legiao-urbana.com.br/p.2)

 

“Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado

Quem diz que me entende nunca quis saber

Aquele menino foi internado numa clínica

Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças

Dos sonhos que se configuram tristes e inertes

Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha”

 

Nessa estrofe,  o eu lírico mostra-se cansado do mundo que o cerca. Não acredita mais nas pessoas e cita um menino o qual, por falta de atenção dos amigos, foi internado em uma clínica.

Este menino traz consigo as consequências da melancolia (como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha), ele perde todo o desejo pela vida e torna-se uma pessoa sem ação, ele apenas está vivo fisicamente, não vive, não exerce suas atividades.

Toda a tristeza sentida pelo eu lírico é atribuída à ausência de atenção das pessoas que o rodeiam.

Existe uma diminuição da autoestima, pois, segundo o eu lírico, as pessoas próximas dele não lhe dão  importância, ele se considera um ser não merecedor de atenção.

 

E Clarisse está trancada no banheiro

E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete

Deitada no canto, seus tornozelos sangram

E a dor é menor do que parece

Quando ela se corta ela esquece

Que é impossível ter da vida calma e força

Viver em dor, o que ninguém entende

Tentar ser forte a todo e cada amanhecer

 

Nessa estrofe aparece uma personagem chamada Clarisse. Esta, por meio da tentativa de suicídio, procura fugir das dores da realidade. Ela corta os próprios tornozelos com um canivete e a dor física é o remédio para a dor psicológica. Clarisse é uma pessoa perturbada, não possui a calma necessária para viver, a sua força já foi perdida, portanto ela busca, na morte, a própria realização. A sua vida é cheia de dor e ninguém consegue entender o quanto é difícil ser forte a cada dia, carregando no peito  a dor vivente.

 

Uma de suas amigas já se foi

Quando mais uma ocorrência policial

Ninguém entende, não me olhe assim

 

Nesses três versos, é mostrado que uma das amigas da personagem Clarisse já morreu, depois é feita uma alusão à polícia, dando a entender que existe algo ilegal no seu círculo de amizades.

 

Ninguém entende, não me olhe assim

Com este semblante de bom samaritano

Cumprindo o seu dever, como se fosse doente

Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente

 

O eu lírico aparece novamente, mostrando a sua descrença em relação às pessoas, ele não acredita que outros seres humanos possam ter compaixão por ele, e os ataca:

 

não me olhe assim com este olhar de bom samaritano

 

A ironia está presente neste ataque ao “outro”, em que é relatado que a pessoa apenas finge estar preocupada com o eu lírico, mas não faz nada para ajudá-lo.

O egocentrismo é marcado fortemente, pois o eu lírico julga-se o único ser que possui essa dor, como se ninguém houvesse sentido antes e, assim, é impossível que alguém o entenda. Ele se preocupa apenas com a própria dor. Está voltado para o próprio ego, formando um escudo entre si e o mundo.

 

E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito

Clarisse sabe que a loucura está presente

E sente a essência estranha do que é a morte

Mas esse vazio ela conhece muito bem

 

Clarisse “surge” novamente e é feita uma referência às drogas (antidepressivos e calmantes).

Quando Clarisse está lúcida, a essência da morte apodera-se de sua alma como algo misterioso e esse mistério é algo a ser desvendado quando a morte realmente a consumir por completo.

A morte é citada como um vazio e Clarisse conhece isso muito bem, porque sua própria vida é vazia.

 

De quando em quando é um novo tratamento

Mas o mundo continua sempre o mesmo

O medo de voltar pra casa à noite

 

Os homens que se esfregam nojentos

No caminho de ida e volta da escola

A falta de esperança e o tormento

De saber que nada é justo e pouco é certo

 

E que estamos destruindo o futuro

E que a maldade anda sempre aqui por perto

A violência e a injustiça que existe

Contra todas as meninas e mulheres

 

Um mundo onde a verdade é o avesso

E a alegria já não tem mais endereço

Clarisse está trancada em seu quarto

Com seus discos e seus livros, seu descanso

 

Nota-se que Clarisse passa por vários tratamentos  para tentar recuperar-se, mas tudo isso é inútil, pois o mundo continua o mesmo.

Conforme Angélica Castilho e Érica Schlude, na obra Depois do fim, 2002 :

 

Em Clarisse (9º álbum), a consciência das perversidades do mundo torna uma adolescente de quatorze anos em um eu lírico profundamente incompreendido, gauche , e autodestrutivo: ” E Clarisse está trancada no banheiro / E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/ Deitada no canto, seus tornozelos sangram / E a   dor é menor do que parece.(2002, pg. 144)

 

Clarisse é extremamente contra o mundo que se apresenta a ela, mas não existe nada claro do que realmente a faz tão perturbada e constantemente em busca da morte. A personagem não tenta recuperar-se de toda essa dor, portanto notamos que o problema está consigo, porque não tem forças para conseguir sobreviver com os problemas da vida.

 

Eu sou um pássaro

Me trancam na gaiola

E esperam que eu cante como antes

 

Me trancam na gaiola

Mas um dia eu consigo existir

E vou voar pelo caminho mais bonito

Clarisse só tem 14 anos

Aqui, o eu lírico reaparece mostrando que se sente preso, mas vai conseguir libertar-se, de toda a dor do mundo através da morte. A vida é a prisão em que ele vive, morrendo, encontrará a liberdade.

 

CONCLUSÃO

O eu lírico do poema de Álvares de Azevedo mostra-nos profunda adoração pela morte. Ele, assim como Clarisse (“personagem” da música de Renato Russo), sente-se infeliz e inconformado com a vida, pois não consegue felicidade plena.

Em determinado momento da canção de Russo, Clarisse mostra que conhece muito bem o vazio causado pela morte, o eu lírico de “Se eu morresse amanhã!” também, pois, mesmo estando vivo fisicamente, ele retrata a sua afinidade com a morte.

Na canção de Renato Russo temos, além de Clarisse, um eu lírico, o qual também é alguém que busca a morte como “remédio” para as suas tristezas.

A melancolia marca fortemente essas obras, principalmente, por estas não apresentarem, perdas concretas para suas vozes poéticas e suas personagens, que têm dor tão grande e obsessão pela morte.

 

*Eliana Aparecida Gazola  ligazola@yahoo.com.br Revisora gramatical, professora de Língua Portuguesa e aluna do curso de Formação em Psicanálise do Núcleo Tavola

 


Baixe este artigo em PDF

Comente via Facebook

Still quiet here.sas

Leave a Response